Quando o assunto é indisciplina dos alunos e atitudes de rebeldia e agressões, há a necessidade de mudanças paradigmáticas profundas na escola enquanto comunidade. A postura tradicional de onipotência por parte do educador, mesmo quando se coloca para ajudar o outro (o qual é visto como impotente e incapaz de resolver seus problemas), é um modelo inadequado para alcançar soluções. Entender os motivos, os porquês que estão por detrás de cada fala, do que as pessoas dizem, é a chave na resolução dos conflitos. O respeito, a responsabilidade e a cooperação são fundamentais. Na mediação de conflitos dentro da unidade escolar o professor não pode ser o protagonista, deve considerar que não está sozinho nesse processo, e por essa razão deve trabalhar em equipe.
A negociação e o diálogo são vitais para entender o porquê. Faz-se necessário neste novo paradigma compreender primeiro e não apenas penalizar, saber escutar as razões. O conceito de culpa deve ser mudado para o paradigma do conceito de responsabilidade. Em mediação escolar não há culpa, há uma co-responsabilidade. Quando há responsabilidade há reparação, pois a culpa não resolve nada, apenas paralisa e exclui. A co-responsabilidade leva à reparação por meio da ação do que foi feito. Culpa ou castigo envolve exclusão e rótulos, a responsabilidade não. Vejamos alguns aspectos:
Ausência dos pais, de limites e de afetividade. Crise de autoridade. Equilíbrio e estrutura familiar. O desejo de possuir bens materiais, melhor qualidade de vida e conforto para sua família. Preocupação com a educação e a qualidade no processo de ensino e aprendizagem, e qualidade da infra-estrutura. Ideal de escola perfeita, sem indisciplina e com alto índice de aprovação. Ter aceitação e “poder” (emancipação). Brincar e curtir. Desejo de reconhecimento, de “ser alguém” e vontade de poder se expressar, opinar e deixar sua marca. Aprovação acadêmica.
INFLUÊNCIA DOS ILUSÓRIOS NA FAMÍLIA, ESCOLA E ALUNO:
Convívio familiar biparental. Possuir para ser ou ter para ser (consumismo). Os filhos como prioridade. Estabelece um ideal para os filhos alcançarem na vida. Deseja uma família equilibrada e participativa na educação escolar. Pessoal e infra-estrutura adequada. Desejo de educar e orientar para o sucesso escolar (ex: vestibular). Baixa auto-estima (é necessário ter para ser). Desejo dos símbolos de consumo. Certificação para inserção no mercado de trabalho. Preocupação com a repetência escolar.
Nós somos o que os outros pensam que nós somos. A identidade pessoal é estabelecida pelos outros. Os outros me dão a condição de quem eu sou. Na relação professor e aluno, a pior atitude é a indiferença. Para uma criança, o fato de ser ignorada é cruel. Há uma dependência total da identidade pessoal.
A associação que fazemos com a palavra conflito geralmente está relacionada a má comunicação, má interpretação, incompreensão, impasse, frustração, briga, divergência, dúvidas, insatisfação, rejeição, desentendimento, divergências, etc. Até mesmo a própria mídia lucra muito com os conflitos internos das pessoas. O conflito se estabelece quando queremos que o outro aceite a nossa vontade. Os conflitos interpessoais surgem na tentativa de querer que os outros queiram e desejem o que queremos. A mediação é um processo que analisa o conflito em si e suas manifestações. A expressão ou manifestação do conflito deve ser analisada pela mediação para levar ao conflito em si, ou seja, o que está causando esta manifestação. A manifestação (sintoma) ocorre em graus diferentes de violência, o conflito é a doença. Do conflito manifesto, o mediador deve ir ao conflito subjacente: conteúdos objetivos e conteúdos subjetivos (os subjetivos são os verdadeiros motivadores do conflito). A questão subjetiva deve ser inquirida com o seu significado: o que significa determinada manifestação objetiva? Quais as motivações? As motivações são pessoais? A partir das motivações é possível entender quais são as manifestações subjacentes.
Vejamos a seguinte situação. Entre um grupo de professores foi feita a seguinte dinâmica: cada participante recebeu um balão e o encheu. Em seguida o coordenador solicitou que amarrassem os balões e o segurassem com a mão esquerda, e que colocassem a mão direita aberta para trás, onde foi colocado um palito de dente. A regra era: proteger o seu balão e mantê-lo cheio até acabar o tempo de cinco minutos. Dado o sinal de início, alguns balões começaram a ser estourados pelos colegas com o palito de dentes. Ao final do tempo dado, apenas dois permaneceram com os balões cheios. Todos poderiam ter permanecido com os balões cheios se não usassem os palitos, pois a regra não era estourar os balões. Foi o espírito competitivo que os levou a furar os balões. Nesse espírito todos querem ganhar. Embora a consigna fosse ter o seu balão cheio, apenas dois se preocuparam em proteger o seu balão. O palito de dentes simboliza o conflito. Neste modelo, em situações de conflito o nosso objetivo é ganhar, não basta proteger, é preciso vencer e para vencer é preciso destruir o outro nas dimensões objetiva e subjetiva. Este é um paradigma cultural que precisa ser desconstruido. Todos tinham palitos e o outro esperava que o ataque ocorresse. A forma de proteger foi atacando, porque o outro esperava isso. A filosofia que predomina é: o importante é que a outra pessoa perca e que eu ganhe! A fórmula era: para eu ganhar o outro tem que perder, mas esse é um paradigma que precisa ser desconstruido na mediação. Em lugar dele é preciso pensar no que podemos fazer juntos para solucionar o problema que nos envolve. Essa é a mudança de paradigma que deve ser feita.
Na mediação escolar é fundamental que o mediador seja capaz de separar os fatos da fantasia.
Ao lidar com conflitos, o mediador estará lidando com emoções. Emoções são sentimentos, reações e manifestações corporais percebidos, que afeta o corpo sem passar pelo raciocínio. Envolve sentimentos de amor e/ou ódio. Diante das manifestações corporais, o mediador pode solicitar que os envolvidos falem do que estão sentindo. É necessário quebrar as normas culturais que reprimem e sufocam as expressões das emoções. É importante e fundamental saber escutar, para dar a oportunidade do(a) aluno(a) falar e expressar o que está sentindo. Os envolvidos devem expressar suas emoções por meio do diálogo e não por meio de agressões físicas. Diante disso, o professor mediador é um facilitador do processo da mediação, objetivando principalmente a cooperação e a co-responsabilidade das partes envolvidas para a solução do conflito. Portanto, a mediação escolar na resolução de conflitos é um desafio e uma cultura que ainda precisa ser muito discutida e implementada na educação brasileira.








0 comentários:
Postar um comentário