Quais são os principais problemas de convivência que você pode
encontrar no cotidiano escolar?
A conduta ética, a
postura do estudante e o comprometimento com a boa convivência são construídos
pelas crianças e pelos adolescentes ao longo dos anos, nas interações na
escola, em casa e em outras esferas da sociedade.
É a partir dessa
experiência e da reflexão sobre ela que os aprendizados são produzidos. Assim,
é parte do nosso fazer como professores intervir quando há problemas de
convivência.
Por isso, é
importante refletir sobre esse tema e aprimorar nossa compreensão sobre ele.
Por exemplo, é comum chamarmos de indisciplina todos os tipos de problema de
convivência que ocorrem no dia a dia. Mas você sabia que nem tudo é o que
parece ser?
Portanto, nosso
objetivo neste módulo é ajudar a aprimorar seu olhar e apoiar sua ação em sala
de aula. Esperamos que você possa refletir sobre os elementos fundamentais que
caracterizam e diferenciam os problemas de convivência e que podem ser a chave
para nossa intervenção educativa.
Um
olhar para os problemas de convivência na escola
Para iniciar este
curso, convidamos você a analisar um conjunto de ilustrações. Elas representam
diferentes situações que costumam acontecer em sala de aula e são desafios para
a prática docente e para a aprendizagem dos alunos. Você já se deparou com
alguma delas?
Situações
como essas são frequentes nas escolas, e muitas vezes chamamos tudo de
indisciplina. Identificar suas diferenças e peculiaridades favorece boas
intervenções educativas e é uma oportunidade de construir um ambiente
respeitoso e um clima positivo para a aprendizagem.
Neste curso, apresentamos alguns encaminhamentos didáticos para os problemas de convivência. Esperamos que eles sirvam de base para a adoção de intervenções personalizadas que façam sentido, que dialoguem e que contribuam para a convivência ética na comunidade escolar.
Refletindo sobre os problemas de convivência.
Diariamente presenciamos problemas de
convivência em sala de aula, nem sempre fáceis ou simples de serem
equacionados. Alguns, em especial, ecoam por mais tempo em cada um de nós e,
como tocam nosso senso moral, desencadeiam torrentes de sentimento. Pensando
nisso, convidamos você a ler a situação descrita a seguir e a refletir sobre
ela.
Rafaela é professora de matemática do 8º ano. Ela ministra aulas em
várias turmas, mas em uma, especialmente, sente-se desmotivada. As situações se
repetem: sala com muito ruído, alunos em pé, gritando, ninguém se escuta. A
professora já tentou de tudo: anda pela sala, pede aos alunos que estão em pé
para se sentarem, diz que está cansada, refaz combinados, encaminha para a
coordenação, envia comunicado às famílias… Mas nada parece funcionar.
Lendo esse relato, que tipos de
problema de convivência você diria que a professora Rafaela tem enfrentado?
1 – indisciplina; 2 – violência; 3 –
bullying/cyberbullying; 4 – transgressão; 5 – incivilidade.
- Você já passou por situações
parecidas com essa da professora Rafaela? Revisite sua trajetória como
educador buscando na memória uma situação semelhante e anote-a em seu
caderno. Esse registro será utilizado em outras atividades ao longo deste
curso, por isso é importante tê-lo à mão.
- Procure classificar a situação
que você relatou de acordo com os tipos de problema de convivência já
mencionados nas atividades 1 e 2 deste curso. Se quiser, reveja as imagens
da atividade 1, pois elas podem apoiá-lo nessa classificação.
Estudando sobre os problemas de convivência.
O aprimoramento de
nossa prática educativa se dá em um ciclo que envolve experiência, reflexão
aliada ao estudo e ação.
Por isso, é essencial estudar temas que representam desafios para nossa ação em sala de aula no que diz respeito aos problemas de convivência e criar observáveis para melhorar nossa prática.
Indicamos, então, a
leitura do artigo O desafio da convivência, de Telma Vinha e Cesar A. Amaral
Nunes, em que os autores abordam os diversos problemas de convivência que
enfrentamos na escola. Que tal parar uns minutos e ler esse artigo?
Agora é o momento de
refletir sobre a leitura! Trouxemos algumas questões para guiar você nessa
reflexão. Vamos lá?
a. O que mais chamou
sua atenção na leitura do artigo?
b. A partir das discussões apresentadas
no texto compartilhado, cite duas estratégias que podem ser usadas por você na
gestão da sala de aula.
c.
O artigo destaca que a escola aparentemente trata como normal o problema da
violência de gênero e orientação sexual. O que você pensa sobre isso?
d.
Reflita novamente sobre a situação que você resgatou de sua memória na
atividade anterior e sobre a experiência da professora Rafaela. Algo mudou na
forma como você vê os problemas de convivência? Se sim, o que mudou? Há algo
que você pretende passar a observar de agora em diante? Anote suas respostas e
considerações em seu caderno pessoal.
Diário reflexivo:
ferramenta de estudo dos problemas de convivência.
O diário reflexivo é
uma importante ferramenta de estudo porque, por meio da narrativa,
potencializamos a experiência pessoal e profissional, além do desenvolvimento
da responsabilidade social e dos comportamentos orientados por princípios
éticos.
A narrativa evidencia
a combinação de conhecimentos, capacidades e atitudes. Nesse sentido, o diário
reflexivo depende, entre outros elementos, da análise e da discussão de casos.
Para
fazer um diário reflexivo no contexto do cotidiano escolar, considere os passos
descritos a seguir.
- A escrita no diário começa dando destaque a uma situação marcante que vivemos ou de que tivemos notícia. Por isso, o primeiro passo é apresentar essa situação sem filtros e apontar de que forma ela nos toca e que sentimentos e ideias ela nos desperta.
- A escrita continua com nossa reflexão sobre essa situação: quais são os riscos que se apresentam; quais são os impactos para os envolvidos e para a turma no que se refere à qualidade das relações e às aprendizagens; quais são os desafios que se apresentam para o professor e para a própria gestão escolar, etc.
- Você vai observar que algumas dessas questões se destacam em sua reflexão. Vale a pena deter-se mais nelas. Aqui pode ser interessante fazer relação com alguns autores ou textos que são referência para você quando se depara com esse tipo de situação. Esse diálogo com a teoria pode ajudar a iluminar novos caminhos e formas de reequacionar as situações vividas.
- Para finalizar essa escrita no diário, vale se perguntar sobre possíveis encaminhamentos para superar os desafios vividos no cotidiano escolar e aprender com eles, criando práticas que colaborem com melhores relações entre todos.
- Agora, que tal exercitar essa ferramenta de estudo?
Para isso, leia os
dois relatos a seguir, escolha aquele que foi mais impactante para você e, a
partir dele, faça um diário reflexivo.
Relato 1
Trecho
do capítulo “Escola é lugar de agressão?”, do livro Desafios reais do cotidiano
escolar brasileiro, coordenado por Katherine
K. Merseth.
A aluna Larissa do 8º
ano entrou na sala da coordenadora pedagógica correndo e com as duas mãos
pressionando as narinas que sangravam. A coordenadora Luzia prontamente se
levantou para acolher a estudante, como sempre fazia em uma emergência ou
necessidade. […] Larissa era uma menina tímida, que tinha dirigido a palavra
poucas vezes à Luzia. Porém, ao caminharem em direção ao banheiro que ficava
bastante próximo, conversaram bastante sobre o ocorrido. Larissa contou que um
colega da mesma sala lhe dera um soco no nariz de maneira inesperada e
descabida, só porque ela tinha pedido para ele parar de gritar e pular pela
sala, pois queria fazer uma atividade com mais concentração, e isso estava
difícil. Já havia muito barulho na classe e esse colega estava tumultuando o
ambiente ainda mais.
Fonte:
MERSETH, Katherine K. (coord.). Desafios reais do cotidiano
escolar brasileiro: 22 dilemas vividos por diretores, coordenadores
e professores em escolas de todo o Brasil. São Paulo: Moderna, 2018.
Relato 2
Trecho
do capítulo “Relações na escola, a escola de relações”, do livro La scuola e l’arte di ascoltare.
Gli ingredienti delle scuole felici, de Marianella Sclavi e Gabriella Giornelli
(tradução para fins didáticos).
Tento entender o que
aconteceu. Não é fácil.
Ao chegar à escola,
vejo que um menino está andando de um lado para o outro na frente do prédio.
Descubro mais tarde que também está envolvido na confusão: ele está lá para
proteger “sua namorada” de qualquer ataque.
Entendi, portanto,
que o fato envolve duas meninas da mesma turma e que há uma história de amor no
meio, mas que a aluna que sofreu a agressão física é de outra escola.
Aparentemente toda a
turma está dividida em apoiadores e opositores, e ameaças ou outras
manifestações acabaram isolando uma das duas meninas, a Agnes, tida como a
principal culpada, responsável, segundo os demais, por “flertar” com o menino
(o que está de fora da escola) que já era namorado da Claudia. A agressora não
é a Claudia, mas sua amiga mais próxima chamada Manuela.
O evento não é nada
claro, e a dinâmica do que aconteceu fica ainda mais confusa quando ouço as
duas versões conflitantes depois de ter falado separadamente com as duas
protagonistas.
Decido então que o
fato de não entender nada é o mal menor, mas que, se quero acalmar os ânimos,
devo agir de modo rápido e imediatamente. Eu propus organizar uma mediação
criativa entre todas as partes envolvidas, a qual foi realizada com sucesso.
No entanto, o que
quero destacar aqui é como certos desenvolvimentos na história são tão
emocionalmente envolventes que envolvem e bloqueiam ações em outros campos e
que a incapacidade de conter as emoções vivenciadas desencadeia uma agressão
quase raivosa. A isso, somam-se a eventos pessoais, frustrações ou dores que
não são fáceis de aceitar e que os alunos não são educados para entender e
apoiar.
[…] Este não é um
caso isolado, mas a ponta de um fenômeno muito difundido que a escola não tem
dado muita importância: a incapacidade de muitos jovens de compreender suas
emoções, de saber ler as dos outros, de se colocar no lugar de quem está
acusando, zombando ou batendo.
Fonte:
SCLAVI, Marianella; GIORNELLI, Gabriella. La scuola e l’arte di ascoltare.
Gli ingredienti delle scuole felici. Milano: Feltrinelli Editore, 2014.
Agora
que você leu os dois relatos, escolha um deles e inicie seu diário reflexivo,
apresentando o relato brevemente e compartilhando os sentimentos e as ideias
que essa situação provocou em você.
Abaixo,
relembramos os passos do diário reflexivo.
- Dar destaque à situação escolhida, apresentando-a sem filtros. Apontar de que forma ela te toca e que sentimentos e ideias ela desperta em você.
- Seguir a escrita realizando uma reflexão sobre essa situação: quais são os riscos que se apresentam; quais são os impactos para os envolvidos e para a turma no que se refere à qualidade das relações e às aprendizagens; quais são os desafios que se apresentam para o professor e para a própria gestão escolar, etc.
- Observar quais pontos ou questões se destacam mais em sua reflexão, pois vale a pena deter-se mais nelas. Aqui, pode ser interessante fazer relação com alguns autores ou textos que são referência para você quando se depara com esse tipo de situação. Esse diálogo com a teoria pode ajudar a iluminar novos caminhos e formas de reequacionar as situações vividas.
- Para finalizar essa escrita no diário, se pergunte sobre possíveis encaminhamentos para superar os desafios vividos nesta situação e aprender com eles, criando práticas que colaborem com melhores relações entre todos.

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