Ferramentas para
intervir em problemas de convivência: círculos restaurativos, assembleias e
roda de conversa.
Neste módulo, apresentamos três
ferramentas didáticas e práticas que você pode inserir em seu cotidiano com a
turma, para equacionar problemas de convivência ocorridos e evitar a incidência
de outros novos, favorecendo uma cultura de paz e construindo um clima escolar
de acolhimento às diferenças.
São elas:
- círculos restaurativos;
- assembleias;
- rodas de conversa.
Vamos conhecê-las?
Círculos restaurativos: uma ferramenta para atuar
diante de problemas de convivência.
Os círculos restaurativos são uma
ferramenta para favorecer a comunicação e a construção coletiva da paz entre um
grupo de pessoas.
De acordo com Kay Pranis, sua origem
se confunde com a origem da humanidade, nas infindáveis situações em que as
pessoas se reuniam em torno do fogo para resolver problemas e encontrar pontos
de vista e valores em comum que permitissem superar desavenças.
Como os círculos restaurativos
funcionam?
Essa ferramenta se estrutura conforme
a tradição dos povos originários norte-americanos: um bastão de fala era usado
para marcar a alternância entre fala e escuta nas trocas que aconteciam na
roda.
No livro Processos circulares de
construção de paz, Kay Pranis nos explica que os círculos restaurativos
são um modelo de comunicação em grupo no qual todos se sentam frente a frente,
podem se olhar nos olhos e se escutar com clareza: por isso a imagem do
círculo.
Uma pessoa fala de cada vez, e a
oportunidade de falar se move sequencialmente ao redor do círculo, usando um
objeto de fala. Cada pessoa espera para falar até receber o objeto. Nos
círculos restaurativos não se interrompe a fala do outro.
Esses cuidados dão corpo aos
princípios de conexão, igualdade e compartilhamento de poder ao longo do
círculo, o que cria um espaço seguro para a construção de relacionamentos e
para a expressão de sentimentos e opiniões.
Como os facilitadores/mediadores do círculo devem atuar?
É papel dos facilitadores/mediadores
projetar o processo de troca de ideias no círculo, relembrando seus passos e
fazendo as perguntas planejadas anteriormente – quando se desenhou o círculo –,
além de participar como todos os outros envolvidos no círculo.
Dependendo do objetivo do círculo,
eles podem falar primeiro em uma rodada para modelar a resposta ou modelar o
tipo de compartilhamento.
Também podem falar ao fim da rodada
para evitar influenciar a discussão.
Em raras ocasiões, podem falar sem o
bastão de fala, mas apenas por motivos relacionados ao processo, não para falar
sobre o conteúdo ou para comentar o que alguém disse.
Em que situações os círculos
restaurativos costumam ser usados?
Eles podem ser usados em qualquer
ambiente e com pessoas de qualquer faixa etária para:
- Construir relacionamentos
baseados no respeito mútuo;
- Apoiar um indivíduo que
passa por problemas ou sofrimentos graves;
- Favorecer a discussão de um
tema importante para o grupo;
- Tomar decisões
coletivamente;
- Resolver conflitos (entre
duas pessoas, em um grupo).
O que você achou da proposta dos
círculos restaurativos?
Essa prática tem sido utilizada com sucesso em numerosas escolas ao redor do mundo. Ela promove uma mudança fundamental: tirar o foco de uma justiça retributiva, baseada em punições, para uma justiça restaurativa, baseada na corresponsabilização. Vamos ver mais sobre isso na próxima atividade.
Quer saber mais sobre os círculos
restaurativos?
Indicamos a leitura do livro Processos circulares de construção de paz, de Kay Pranis,
Editora Palas Athena, 2010.
Mudança de foco: da justiça retributiva para a
justiça restaurativa
Você já reparou que crianças e
adolescentes que se envolvem frequentemente em problemas de convivência acabam
não se importando com as medidas de punição, como repreensão, suspensão ou
convocação dos pais/responsáveis?
Do ponto de vista da construção das
bases para a cooperação e para o julgamento moral, vários estudos apontam que a
aplicação de punições frequentes aumenta o isolamento dos alunos que são alvos
delas e favorecem um raciocínio do tipo “nós contra eles”, em vez de
possibilitar o comprometimento com as normas para o bem-estar comum e a
cooperação.
Para fazer frente a isso, é
necessário uma mudança de cultura, passando da justiça retributiva – pautada em
punições e premiações – para uma justiça restaurativa – pautada na cooperação e
no comprometimento entre pares.
Peta Blood, Margaret Thorsborne e Brenda
Morrison pesquisaram essa mudança cultural em escolas e organizaram dois
quadros comparativos, compartilhados a seguir, destacando pontos-chave dessa
transformação.
Uma distinção que as autoras fazem é quanto às perguntas centrais que
organizam os processos de justiça na cultura tradicional e na cultura
restaurativa.
Trata-se de uma mudança de paradigma, que convida os alunos à sensibilização, a se comprometer com os pares, a refletir sobre o dano infligido e a se responsabilizar.
Toda a intervenção é feita para
manter o aluno na relação com os pares, em vez de isolá-lo.
Corresponsabilização e pertencimento andam lado a lado.
Os círculos restaurativos são
essenciais para dar fluxo, sentido e coerência a essa mudança de
mentalidade e apoiam a construção dessa nova cultura escolar.
[Os processos de justiça restaurativa agem] por meio da construção de uma comunidade de cuidados em torno dos indivíduos envolvidos, ao mesmo tempo em que fortalecem a responsabilização e busca da reparação. Isso envolve a construção de um entendimento coletivo sobre o que aconteceu, como as pessoas foram afetadas, como se pode reparar o dano causado e quais as maneiras de evitar a probabilidade de novos comportamentos prejudiciais.
Peta Blood, Margaret Thorsborne e Brenda Morrison
Que tal fazer um exercício simples,
de reflexão?
Feche os olhos e procure se lembrar
de um incidente em que você vivenciou uma transgressão realizada por um aluno
ou um colega.
Qual caminho foi tomado na resolução
desse incidente: foi uma abordagem retributiva ou restaurativa? Qual é a
abordagem mais comum em sua escola?
Passo a passo dos círculos restaurativos
Você já viu o que são os círculos
restaurativos e a mudança de cultura que eles convocam na escola.
Agora é a vez de conhecer seu passo a
passo!
O exemplo a seguir é de um círculo
restaurativo planejado por Kay Pranis e Carolyn Boyes-Watson.
OBJETIVO: conversar a respeito de um incidente entre alunos que causou danos,
sofrimento e humilhação a um deles e encontrar uma resposta para esse dano.
MATERIAIS: bastão de fala, sino ou outro instrumento de som, recortes de papel
para escrever os valores, quadro ou cartaz para escrever as diretrizes e
canetinhas.
PREPARAÇÃO: acomode todos em um círculo de cadeiras, sem qualquer outro móvel. Dê
as boas-vindas a todos ao espaço do círculo.
MOMENTO DE ATENÇÃO PLENA/MINDFULNESS: faça uma pausa, respire e escute o
som do sino.
ABERTURA: leitura em voz alta.
Tudo o que a Força do Mundo faz é feito em Círculo. O céu é redondo, e
ouvi dizer que a Terra é redonda como uma bola, e as estrelas também. O vento,
na sua maior potência, rodopia. Os pássaros fazem seus ninhos em círculo, pois
a sua religião é a mesma que a nossa. O sol surge e se põe novamente em
círculo. A lua faz o mesmo, e ambos são redondos. Até mesmo as estações formam
um grande círculo em sua mudança… e sempre voltam para onde estavam. A vida de
uma pessoa é um Círculo de infância a infância, e assim é em tudo onde a força
está em movimento.
Black Elk (Alce
Negro), 1863-1950*
*Black Elk (Alce Negro) foi um homem
sagrado da tribo Oglala Tituwan (Lakota).
Fonte: NEIHARDT, J. G. Black Elk speaks (O Alce Negro fala). 1932. p. 194-95.
EXPLIQUE POR QUE ESTAMOS AQUI: Nós estamos em círculo hoje para encontrar a maneira de deixar as coisas
bem novamente depois do que aconteceu.
Alex estava caminhando no corredor da
escola quando Anderson deu um encontrão proposital para derrubar o livro que
Alex levava. Um grupo de jovens começou a rir quando viram isso acontecer.
Quando Alex foi pegar seu livro, Anderson chutou o livro para longe, o que fez
os jovens rirem ainda mais. Continuaram gargalhando enquanto Alex foi recuperar
seu livro.
Nosso objetivo no círculo é entender como Alex sofreu o impacto pelo que
aconteceu e o que podemos fazer para reparar o dano que ocorreu devido a esse
incidente. Nós também vamos tentar compreender o que precisamos fazer para
evitar que isso ocorra novamente. Eu quero agradecer a cada um de vocês pela
disposição de fazerem parte da busca de uma boa solução para sairmos dessa
situação difícil.
- APRESENTE
UMA “RODADA”: uma
“rodada” é o bastão da palavra passando por cada participante em torno do
círculo.
- O facilitador fará uma
pergunta e, como participante, também poderá respondê-la.
- Ele passará o bastão da
palavra para a pessoa que estiver à sua direita ou à esquerda, indicando
em que direção o bastão da palavra continuará a ser passado em torno do
círculo.
- Na primeira rodada, os
participantes são convidados a dizerem seus nomes, bem como a responderem
a qualquer pergunta que tenha sido feita.
- Lembre-se: sempre é possível
que o participante passe o objeto da palavra adiante sem se pronunciar.
RODADA: Quando você está bem, que valor
define você?
Peça aos participantes que escrevam o
valor no papel e que, depois de o terem compartilhado com o círculo, o coloquem
no centro.
Apresente as diretrizes básicas do círculo:
1.
Respeitar o bastão da palavra.
2.
Falar e escutar com respeito.
3.
Falar e escutar com o coração.
4.
Estar presente.
5.
Honrar a privacidade.
Pergunte aos participantes se há
outras diretrizes que eles gostariam de acrescentar.
ATIVIDADE PRINCIPAL: usar o processo restaurativo com o objetivo de
elaborar um plano para reparar o dano.
RODADA 1: Vocês concordam em seguirmos essas
diretrizes em nosso círculo hoje?
RODADA 2: Apresente-se e conte-nos sobre uma
coisa em que você é bom.
RODADA 3: Nossas experiências de vida são uma
fonte de sabedoria para lidarmos com situações difíceis. Nós vamos buscar
nossas próprias histórias para nos orientar. Conte-nos sobre uma vez em que
você precisou de muita coragem para fazer a coisa certa.
RODADA 4: Com base no que sabemos, o que
aconteceu nesse incidente?
- Comece a passar o objeto da
palavra pela pessoa que sofreu o dano e, depois de falar, ela deve passar
para a próxima pessoa, seguindo o círculo.
RODADA 5: Quais foram seus sentimentos e
pensamentos quando isso aconteceu ou quando você ficou sabendo o que aconteceu?
RODADA 6: Quem foi afetado pelo que aconteceu e como?
RODADA 7: O que está sendo mais difícil para
você? Quais são seus sentimentos e pensamentos a respeito do incidente agora?
RODADA 8: Do que você precisa para que as
coisas fiquem bem e você possa seguir em frente depois desse incidente?
- Comece
a passar o bastão da palavra a partir da pessoa que sofreu o dano,
seguindo a ordem do círculo.
RODADA 9: Contando com nossos pontos fortes, o
que poderia acontecer agora para atender às necessidades e reparar o dano?
- Anote ideias e sugestões.
RODADA 10: O que mais precisa acontecer para
termos certeza de que isso não se repita?
- Anote as respostas.
RODADA 11: Como deveria ser nosso plano?
- Comece a passar o objeto da
palavra a partir da pessoa que causou o dano, seguindo a ordem do círculo.
RODADA 12: leia o resumo dos acordos. Vocês concordam com esse plano? O que se
pode fazer para ter certeza de que esses acordos sejam cumpridos?
RODADA DE CHECK-OUT/FINALIZAÇÃO: Alguém gostaria de dizer mais
alguma coisa?
ENCERRAMENTO: Agradeça a todos por terem participado do círculo!
Enganado
Ele desenhou um círculo que me deixou de fora, Herege, rebelde, uma
coisa a ignorar.
Mas o amor e eu tivemos a esperteza de ganhar: Nós
desenhamos um círculo que o incluiu na roda. Edwin Markham
(1852-1940), poeta euroamericano.
Construindo uma proposta de intervenção
No percurso que trilhamos até aqui,
você pôde conhecer mais sobre os diferentes problemas de convivência e seu
encaminhamento na escola. Além disso, você foi convidado a aprofundar seu olhar
sobre os círculos restaurativos, uma ferramenta importante tanto para intervir
em situações de problemas de convivência como para construir um clima escolar
que evite o surgimento desses problemas.
O convite, agora, é utilizar esse
percurso reflexivo como base para planejar uma proposta de intervenção em uma
situação de problema de convivência.
No trecho a seguir, retirado do livro
de Marianella Sclavi (2000), a aluna Manuela compartilha com a autora o que a
motivou ter um ato de violência contra uma colega.
Nossa proposta é que você leia o relato e anote ideias que poderiam
apoiar uma intervenção educativa nessa situação.
Cito como exemplo a conversa que tive, em preparação para a mediação,
com Manuela, a jovem que já bateu numa menina da sua idade e que ameaça bater
numa outra. Durante a conversa aplico a escuta ativa, por isso estou disposta a
trazer à tona suas emoções, a entendê-la e não a “ensiná-la” a se comportar, o
que virá em outras ocasiões.
Eu: “Me falaram que você bateu em uma menina e que ameaçou outra.”
Manuela: “Não era só eu que batia (indica uma amiga
que está com ela e quem a acompanhou para a entrevista), ela estava
pedindo. Eu disse, o que você se importa com as coisas dos outros? Ela se
envolveu em coisas que não lhe diziam respeito, tudo porque queria defender
Agnes que é uma ótima p… e eu venci ela porque não deixo passar certas coisas,
sou sincera e imediata…”. O tom é muito
animado, ela está visivelmente animada. Durante a conversa, ela demonstra que
considera sua qualidade de “sincera” e de sê-lo também e principalmente quando
“lidera”. Ela não esconde o que sente como os outros fazem!
Eu: “Se bem entendi, você bateu em uma menina e ameaçou outra que ela
estava defendendo. Vamos pular por um momento sobre o fato em si, que eu
desaprovo, mas por que você está tão brava com Agnes? O quê ela fez pra você?”
Manuela: “Como o que ela fez comigo?! Ela flertou com o namorado da Claudia,
que é uma amiga muito querida minha, e quando você faz isso com uma amiga tem
que fazer ela pagar… você me pergunta o que eu sinto? Sinto muita raiva até
querer gritar e só vou me acalmar quando bater nelas!”
Eu: “Falei com a Agnes e ela dá outra versão da história, você quer
ouvir?”
Manuela: “Pode dar outras versões, mas eu sei como foi! Mas você sabe como ela
me chamou? Você sabe? Ela me chamou de bastarda! Agora que tive alguma prova…
que meu pai…” (eu não esperava isso, mas tomo
cuidado para não fazer perguntas).
Eu: “Sim, bastarda não é um termo bonito, mas agora é usado com muita
leveza e frequência, não tem mais seu significado original, na verdade é muito
menos pesado que os outros.”
A essa altura, Manuela começa a
chorar e vai continuar soluçando e assoando o nariz durante todo o tempo da
entrevista, continuando com entusiasmo a história.
Manuela: “Sabe, eu achava que meu pai não me amava, ao invés disso ele provou o
contrário para mim ficando perto de mim quando este fato gravíssimo me
aconteceu e que agora estou contando. Não sou bastarda, longe disso, tenho pais
que pensam em mim.”
Manuela vai continuar na narração de seus acontecimentos pessoais para
me fazer entender que o episódio com Agnes foi a gota d’água que “quebrou as
costas do camelo”, quase um pretexto para desabafar uma amargura profunda que
tinha raízes em outros lugares.
Depois de ler o relato, registre os
sentimentos e as ideias que a leitura despertou em você e pare por um instante
para refletir sobre isso.
Em seguida, imagine que você está
diante de uma situação como essa na escola em que trabalha: quais intervenções
poderiam ser feitas em uma abordagem restaurativa, constituindo uma cultura de
paz na escola?
Para saber mais, você pode consultar:
- MOURA, Maria Suzana de Souza. A arte de escutar: nuances de um campo de práticas e de conhecimento. Revista Terceiro Incluído, v. 6, n. 1, 2016. Disponível em: https://revistas.ufg.br/teri/article/view/40739. Acesso em: 19 fev. 2023.
Roda de conversa: como envolver os educadores
da escola nessa reflexão?



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